Aquela era mais uma tarde no final do turno escolar. Ele estava no chão, ali, no canto da sala; repetindo o seu ritual diário de autocomiseração. As outras crianças olhavam emudecidas, pálidas, num misto de pena e temor.
Na minha frente, sentado à mesa, estava um menino doce, de feições agradáveis, olhar cabisbaixo e uma certa aura de desproteção. O que me era familiar.
Mesmo após a conversa com a mãe não teria a dimensão do tamanho da rejeição por que passava aquela frágil criatura. Só quando o pai adentrou o consultório pude ter noção do peso exato que aquela criança carregava diante da situação.
As crianças já estavam habituadas às suas 'crises' constantes. Apesar delas, com sabedoria divina, o acolhiam sempre com carinho, e nos momentos de descontração dançavam com a espontaneidade da inocência e o tomavam para as brincadeiras de menino de sua idade. As tarefas nunca copiadas eram lançadas violentamente contra o chão diante do confronto com a triste constatação de que nada fizera. Não havia por quê fazer ou para quem fazer. Sua vida continuava parada na mesma página em branco esperando um pouco de amor para desenhá-la.
Era um menino de poucas palavras. Antes de responder às minhas perguntas, insinuava os olhos para a mãe, que sentada na cadeira ao lado permitia-lhe a palavra. Tímido, aceitou papel e giz para desenhar mesmo depois de lhe dar a opção de brincar com a massinha de modelar respondeu com um 'tanto faz' acuado.
Na folha desenhou primeiro a si, no centro do papel, de um lado a mãe , do outro o pai, todos soltos no branco profundo do papel ; o desenho com tamanha clareza e simplicidade prenunciava a situação : todos ali estavam sem chão.
A resposta, não sei. O diagnóstico menos ainda. Apesar dos relatos de constantes oscilações em seu humor, a mim não se apresentou doença alguma como as descritas nos manuais de psiquiatria. O que não me calou aos olhos foi o grande mal que assombra, destrói e entorpece; que mora ao lado, por vezes em nosso próprio coração. A doença da indiferença ou falta de amor ou tanto faz...