domingo, 8 de julho de 2012

Um Belo Dia Para Morrer

                 Uma tarde chuvosa de inverno
                 Num domingo silencioso e austero
                 Quando os ventos assobiam e parecem susurrar
                 O chão molhado , o barulho das poças
                 As pessoas recolhidas em suas casa
                 prontas para receber uma notícia triste

                 Num belo dia para morrer
                 tem-se a certeza de ter deixado tudo pronto
                 Todas as cartas de despedida
                 devidamente endereçadas
                 a roupa do sepultamento aos meus pés na cama


                Num belo dia para morrer
                tem-se a certeza que se fez todo o possível
                que tentou amar a quem se queria de todas as formas
                apesar de mesmo assim não haver resposta
                tem-se a certeza que deixou boas lembranças no coração dos amados
                tem-se a certeza de que se é amado mesmo sem sentí-lo
                tem-se a certeza do perdão por algo tão brutal

quinta-feira, 5 de julho de 2012

A Vida Que Não Vivi

                A vida que não vivi anda ao meu lado
                susurra no meu pesoço o quanto pode ser boa
                seduz ardilosamente
                prometando  a luz no fim do túnel

               A vida que não vivi me visita toda noite
               Quando, a mesma badalada do relógio me deito à cama
               diz coisas bonitas
               me mostra campos e jardins

               A vida que não vivi me apresenta o homem que seria  meu
               se por ventura tivera escolhido a vida que não vivi
               este homem me olha, não como um estranho, e me diz:
               -- Eu estou dentro de ti! 

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Transbordo

                Por que transbordo a vida contida em mim?.....
                ...que espalho ao meu redor..
                por que não consigo conter as lágrimas que tentam em vão aliviar o meu coração partido
                elas apenas marcam minha face com sulcos profundos que revelam mais do que deveriam
                tento ocultar de mim mesma os motivos da minha tristeza
                mas de todos sei um por um
                preciso contê-los até que então o meu desejo de vida os transborde
               e enfim
               abra o caminho para o que há de chegar
               

domingo, 1 de julho de 2012

A Impossibilidade do Amor

               Acho que ouvi muitas estórias de princesas e príncipes encantados quando era pequena. Talvez tenha crescido com a terrível expectativa de que um dia encontraria com este príncipe, que teria amor eterno para me dar. Que além de me amar também iria me proteger, dar boas gargalhadas  comigo nas tardes de inverno e nas  de verão também. Ele seria perfeito e não me frustraria como na vida real.
               Bem não preciso nem dizer que alguém se enganou. Descobri depois de 'velha' que as histórias de verdade começam onde os contos de fadas terminam. Quando eu escutava 'e viveram felizes para sempre' deveria ter desconfiado de tamanha perfeição, mas era uma criança e a desconfiança ainda era pequena como eu.
              Hoje sei que o 'felizes para sempre' não existe e se existisse talvez fosse uma eterna chatice. A vida é bem mais complexa e nós também. Gostamos da dinâmica, do movimento, das surpresas que não estão contidas na perfeição. Dos amores proibidos, platônicos, antagônicos. Gostamos de complicar, especialmente nós mulheres que carregamos  a culpa cristã pela perda do paraíso. E vivemos correndo atrás deste paraíso perdido incessantemente, desperdiçamos este pequeno instante mágico de existência tentando atingir o que só existe em nosso imaginário infantil.
             Ninguém nos conta que não vai ser fácil e que não há problema algum em não ser amado. Sim, é importante ser amado, mas profundamente  mesmo, isto só deve acontecer  por uma ou duas vezes e olhe lá. Esta é a realidade.
             Já o amor romântico parece mais com duas umas pílulas azuis, uma se compra na farmácia , a outra tem vários apelidos e deixa as pessoas mais 'amorosas' e figura nas haves; são os três uma invenção sintética  para aliviar a inviabilidade de existir sem dor, ausência ou falta. Então acreditamos neste modelo romântico criado em uma época distante e ficamos tentando reproduzi-lo em um mundo em que ele não cabe mais. Este 'amor' limita, machuca  e ofende; não nos torna melhores, maiores, mais generosos e completos. Nos faz abrir mão de tantas coisas que no final das contas percebo que o amor, esta entidade quase humana  não cresceu e  vingou, mas mesmo assim , românticamente inebriados insistimos em persegui-lo.